Samurais

O encontro entre o Ocidente e o Oriente

Alan Luiz Silva Ramos (Bermuda)
klan2@ig.com.br
klan2@terra.com.br


Relatos do padre Luís Froes, 1588, relatando o declínio do prestígio da Ordem Jesuíta e do comércio português no Japão.

Uma aventura que começou a se delinear em 1543, quando Portugal “descobre” o arquipélago nipônico, e em 1549, com a chegada dos primeiros jesuítas em Kagoshima, liderados pelo Padre Francisco Xavier.

O Japão dessa época apresenta-se politicamente instável, já que o Shogunato de Kamakura está em decadência, gerando uma guerra civil pela disputa do poder entre os vários daimyo (senhores feudais), nos quais três generais se destacam: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu, que tentam unificar o país buscando, cada um deles, ser aceito como o novo Shogun. A esfera religiosa também apresenta-se conturbada entre as duas principais doutrinas: o shintoísmo e o budismo. O shintoísmo está em crise pois não consegue exercer qualquer influência política devido à situação vivenciada na Corte Imperial, com um de seus pilares centradas na figura do Imperador. O budismo, ao contrário, apresenta um retrospecto de grande penetração nas esferas políticas e um desenvolvimento de novas seitas de poderosa influência na sociedade, seitas estas que contestam o poder centralizador do shogunato. Tal posição faz com que o budismo se torne uma ameaça para aqueles que lutam por esse poder. O budismo era forte não só no âmbito religioso, mas também militarmente.

Dentre as seitas budistas, merece destaque a seita Ikko, cujas origens remontam ao amidismo do séc. XIII, caracterizando-se por pregar a salvação pela fé, apresentando, assim, um ponto em comum com o próprio cristianismo, cuja pregação é então incentivada por Nobunaga como meio de combater a oposição do budismo.

É neste Japão que se desenrola a aventura dos jesuítas, formando a linha de frente dos interesses de Portugal e da cristandade. Assim se consiste o confronto Ocidente/Oriente. Jesuítas e portugueses de um lado, monges budistas e japoneses de outros. Os segundos buscam compreender o olhar que os portugueses lançam sobre a sociedade japonesa, estranhos conceitos mercantilistas até então desconhecidos daquele povo de cultura tão exótica. Um jogo onde entra o monopólio português (Portugal); a ampliação da cristandade (jesuítas); ampliação do comércio com o exterior enquanto elemento gerador de poder e riqueza (daimyos); a presença de missionários que competissem com os monges rebelados (Nobunaga).

Porem, com a União Ibérica, onde as fronteiras de comércios se tornariam autônomas, não demonstrou necessariamente amistosidade no comércio com o Japão. Isso nada significou para os espanhóis sediados nas Filipinas: bastaria a entrada de frades franciscanos no Japão a fim de abrir caminho para a penetração espanhola. Os japoneses acabam por assistir ao embate de jesuítas e franciscanos, cada qual defendendo seus pontos de vista e poder religioso. Além de estar contra a posição adotada pela União Ibérica, tal atitude também coloca-se contra o Papado, uma vez que este havia concedido à Companhia de Jesus a exclusividade no trabalho missionário no Japão. Assim, as duas ordens se chocam. Embora os jesuítas tenham a vantagem de estar a mais tempo no arquipélago, tendo influência sobre vários daimyo — além de conhecerem bem o idioma local, tal contenda provocou sérias rachaduras na imagem da ordem, e decorrência, na de Portugal, o que culminou, no século XVII, na expulsão dos jesuítas pelos próprios daimyo.


É nessa interessante e inusitado acontecimento histórico português que pode ser o ponto de partida para a inclusão de um novo tipo de personagens para O Desafio dos Bandeirantes. Imagina em meio ao calor ríspido do sertão, em meio a jagunços e índios, surge em meio ao calor do combate um autêntico samurai brandindo sua espada katana, matando em nome da honra? Acha absurdo? Creio que não.

Historicamente, o contato entre portugueses e japoneses permitiu que ambos se proviessem de conhecimentos um acerca do outro, inclusive sobre a Terra de Santa Cruz. A conturbada expulsão sofrida pelos jesuítas criou um clima de inimizade recíproco. Se inimigos foram criados, e a honra japonesa é tida como o mais importante valor de um homem, acima até mesmo que da própria vida, Shoguns enfurecidos talvez não achassem a expulsão o bastante, ou temessem que Portugal se mantivesse fiel a uma revanche, como a que foi feita a Calicute pela esquadra de Cabral. Foi baseado nisso, sob ordem do Shogun, que samurais navegando meio mundo aportaram em Santa Cruz defendendo sua honra. O conhecimento da região, com fundamentos nas estórias contadas pelos primeiros missionários portugueses acrescentou base para se habituarem aos mistérios de Santa Cruz. Desde então muitos ataques rápidos feitos aos portugueses, dos quais nem ao menos se deram conta, eram feitos por samurais protegidos pela mortalha de floresta que os cobriam. Alguns, inclusive tiveram filhos com as nativas locais, dos quais ambas as culturas compartilham muitas familiaridades, principalmente físicas.

Criação de Personagem

O personagem mestiço de japonês e índio é criada com a tabela racial para indígenas. A explicação para isso é baseado na formação histórica dessas raças (povos pré-colombianos são derivados das tribos asiáticas que alcançaram a América pelo estreito de Bering, no Alasca). Inclusive, a não ser que seja um historiador ou um mercador de escravos, qualquer pessoa ao se deparar com um mestiço desses pensará se tratar de algum índio qualquer.

O personagem terá que aprender obrigatoriamente Idiomas Nipônicos, história antiga e história local e contemporânea (refletindo assim, o conhecimento de seus antepassados). O personagem podem ainda vir a ter o conhecimento de uso de armas exclusivas e desconhecidas da colônia, entre elas, a espada katana.

Levando em conta que uma espada dessa natureza, mesmo no Japão, é raríssima, tenha-se em mente que as katanas que aqui se encontram são artefatos únicos, cabendo ao mestre definir o número exato delas (não sugiro mais que quatro ou cinco em toda a colônia, perdidas ou guardadas). A utilização de uma espada dessas consome grande parte da vida de um samurai em treinamentos e aprendizado filosófico, tornando-se inviável que ele use outras espécies de espadas com a mesma capacidade. A habilidade Luta com espada/facão, se usada com outras espadas que não a katana, possui dificuldade quase impossível. O inverso também é verdadeiro: Qualquer pessoa que não um samurai que por ventura venha a ter em mãos a espada katana (o que é um grande risco de vida para quem o fizer, já que é considerado crime imperdoável por parte do samurai, o mero toque das mãos de um gaijin à lâmina), terá dificuldade quase impossível em seu uso. Claro que esses parâmetros levam-se em conta alguém que está tendo um contato inicial com a espada. Com gastos de pontos de experiência e uma devida interpretação do treino, é possível que gradativamente esses redutores diminuam até serem eliminados (apesar de que um samurai jamais ensinará o uso dessas técnicas secretas por vontade própria, pois a honra samurai é clara). A espada katana causa 1d6+6 de dano. Para personagens iniciais ela custa 15.000 réis. Quanto às armaduras, no Japão elas são feitas de ligas de metal reforçada (e sua raridade na colônia é igualada com a das katanas). Na falta de armaduras de guerra, os samurais de Santa Cruz usam armaduras de madeira que no Japão são feitas de toquinhos de bambu, mas na colônia usam adaptadas com as madeiras locais (considere como um colete de couro leve com 2 pontos a mais de resistência e -1 adicional por absorção de danos cortantes, mas custando o mesmo preço de um couro leve — obviamente o próprio PJ deverá providenciar a feitura e reparos apropriados).

Sociedade

Quanto aos estereótipos do samurai na sociedade, as reações entre os colonos serão as mais variadas, desde o espanto à curiosidade, olhando com atenção coisas como vestes, comportamentos e belíssima espada nas costas do guerreiro. Os conceitos de honra e respeito que os samurais compartilham são muito bem vistos entre os índios.

Em cidades maiores, as autoridades terão atitudes bastante desconfiadas do personagem, pois estrangeiros são colocados em dúvida e podem vir a serem vigiados, importunados e facilmente, presos. Nas pequenas cidades, as autoridades podem até fazer interrogatórios, mais jamais saberão confirmar ao certo as afirmações do personagem. Mas aquela incomum espada com certeza será confiscada.

Porém com a Inquisição a história muda de figura. Sendo o samurai o autêntico símbolo das antigas seitas japonesas, as mesmas que no passado expulsaram os jesuítas, a Inquisição declarou heréticas todas as religiões nipônicas (inclusive a seita ikko, que apresenta traços de semelhança com as religiões cristãs). Claro que seus intentos em destruí-las foram esquecidas com o passar dos anos, até porque existem protestantes no Velho Mundo para se combater e uma colônia inteira para se catequizar. Mas a simples presença de tais guerreiros na colônia representa afronta direta para Deus e seus seguidores.

A Inquisição nunca teve quaisquer notícia de atos que envolvam samurais. Os samurais para a Inquisição são considerados tão pestilentos quanto bruxos e feiticeiros negros.

Nota 1: É importante frisar que ainda há muito o que se falar a respeito de samurais, tais como armas, cultura, filosofias, etc. Isto aqui é apenas a base para o desenvolvimento de uma nova categoria de personagens para O Desafio dos Bandeirantes, estando, portanto, aberto a novas informações que venha por enriquecê-la. Mande-me e-mails (klan2@ig.com.br, klan2@terra.com.br) com sugestões, críticas, dúvidas e demais comentários. Serão respondidas com toda a atenção.

Nota 2: Os relatos do padre Luiz Froes são verídicos. A presença de samurais no Brasil é que trata-se de fantasia.


Contacta me!