Marcelo Del Debbio
Revista Dragão Brasil, Ano 2, Nº
15, Editora Trama
Das centenas e centenas de cartas que chegam à redação da DRAGÃO BRASIL, seja para os Pergaminhos ou para a Barraquinha do Orc, trazem um problema comum: muitos bravos aventureiros começam a se interessar pelo RPG, aprendem suas regras, lêem aventuras-solo, e ficam ansiosíssimos para jogar. Mas chega o momento em que esbarram no mais difícil obstáculo: conseguir um grupo. Sim, porque, apesar do enorme crescimento do RPG no Brasil nestes últimos anos, os RPGistas ainda encontram-se dispersos demais.
Talvez você seja um verdadeiro Cavaleiro Solitário. Talvez seja um único interessado em RPG em sua rua, bairro ou até em sua cidade. Não é uma hipótese nada improvável, tendo em vista que fora da região RioSão Paulo os RPGistas brasileiros encontram-se ainda espalhados demais.
Bem, você terá que começar do nada. Não pense que é impossível, todos os pioneiros do RPG no Brasil começaram assim. Eu mesmo comecei a jogar em 1986, quando poucos nos Brasil sequer imaginavam o que é RPG. Não havia NENHUM RPG traduzido, NENHUM outro grupo de jogadores à minha volta, NENHUMA loja de RPG e NENHUMA revista especializada como a DRAGÃO BRASIL. Um belo dia ganhei de meu pai uma caixa do hoje extinto Marvel Super Heroes, pensando tratar-se de um livro sobre quadrinhos de super-heróis. Não era. Era um jogo de RPG, ou Role Playing Game. Eu e meu irmão aprendemos as regras daquele jogo estranho, com tabelas coloridas e dados de dez faces. Ensinamos a alguns amigos que gostavam de super-heróis. Tempos depois, através de uma importadora de livros, encomendamos o D&D e o AD&D (na época em sua primeira edição). Éramos, então, um grupo de seis jogadores.
Você, que também planeja partir do marco zero, terá que tornar-se um Mestre pois sem um Mestre não há como jogar. Hoje temos quase vinte jogos em língua portuguesa. Comece escolhendo um jogo simples como Dungeons & Dragons, Dragon Quest, First Quest, Hero Quest, Aventuras Fantásticas ou até DEFENSORES DE TÓQUIO. Se achar que pode lidar com jogos mais sofisticados, tente Advanced Dungeons & Dragons, GURPS, Vampiro, Lobisomem, Shadowrun, ARKANUN ou outro. A escolha precisa ser cuidadosa, deve agradar não apenas a você, mas também àqueles que você pretende convidar para jogar: se seus amigos gostam de Conan, não adianta aparecer com um Millenia ou Shadowrun. Se eles detestam os Cavaleiros do Zodíaco e os Power Rangers, nem pense em usar DEFENSORES DE TÓQUIO.
Depois de comprar o jogo, leia todas as regras. Devore o manual de instruções. Tenha certeza de que entendeu tudo antes de convidar seus amigos. Quando estiverem todos reunidos para a primeira partida, faça uma rápida palestra sobre o que é RPG e qual e seu papel como Mestre. Alguns jogadores estranham o fato de que o Mestre pode fazer qualquer coisa, e sentem-se injustiçados; garanta que vai usar seu poder com sabedoria ou melhor, mostre a eles durante o jogo. Acima de tudo, não discrimine as garotas: elas jogam RPG tão bem quanto os homens (às vezes até melhor).
Na primeira vez use uma aventura curta de preferência a aventura pronta que acompanha a maioria dos RPGs. Ensine os jogadores a construir seus personagens. Melhor ainda, traga alguns personagens prontos e deixe que escolham. Explique basicamente o que cada personagem sabe fazer, mas não desperdice tempo recitando aos jogadores tudo que leu no manual: será mais divertido se eles aprenderem durante o jogo. Ensine as regras à medida que elas forem necessárias. No futuro, eles mesmos vão se interessar em ler o manual para tirar melhor proveito de seus personagens e também para serem Mestres um dia.
Se você não conseguir agradar o grupo em sua primeira partida, não desista. Mestrar é como escrever um romance ou o roteiro de um filme: se a história não é boa, se você não consegue envolver o espectador na trama, ele não gosta. Não vai mais querer ler seus livros, assistir seus filmes ou jogar suas aventuras. Preste atenção nos filmes, livros e gibis, tente descobrir como os autores conseguem bolar boas histórias. Você pode usar as mesmas técnicas em suas aventuras.
Bem, talvez você não precise bancar o Cavaleiro Solitário, afinal. Hoje em dia as coisas são mais fáceis, e existem outras maneiras de se iniciar no RPG.
Uma delas, a mais evidente, é visitar os grandes encontros e convenções. Entre as mais conhecidas temos o Encontro Internacional, a USPCON, o RPG São Paulo e o RPG Rio. Esses eventos geralmente contam com mesas especiais para iniciantes, onde haverá um Mestre experiente para orientar todos. Além disso, você pode aproveitar para descobrir outros jogadores e formar seu próprio grupo regular.
Na impossibilidade de comparecer a eventos, tente encontrar um point RPGista em sua cidade. Os jogadores de RPG costumam reunir-se em livrarias especializadas, escolas, universidades e centros culturais ou então formam clubes. Você também pode começar um clube de RPG, basta reunir dez ou vinte pessoas. Muitos clubes começaram assim e são famosos, como o Senhores do Caos, Masters of Dice, Draconis, Hobbit RPG Club, Dragons House, Observadores, Children of the Darkness, só pra citar alguns.
O potencial educativo do RPG também pode ser explorado. Experimente mostrar à sua professora de História o livro básico de O Desafio dos Baudeirantes, um RPG baseado no Brasil colonial; pode ser que, em vez de palestras chatas, você e seus colegas comecem a ter partidas de RPG durante as aulas. Muitas outras matérias podem ser ensinadas através do RPG, e os professores deveriam tirar proveito disso.
Acima de tudo, não desanime. Cedo ou tarde você fará parte de um grupo. O RPG está se espalhando cada vez mais rápido pelo Brasil; é um jogo saudável, que incentiva a leitura, a criatividade e o trabalho de equipe e melhor ainda, é mais barato que videogame.