Metaplasmos

Além da apócope já assinalada sob o título Regra Geral, dão-se ainda os seguintes metaplasmos:

Quando se encontram duas vogais iguais, ou mesmo diferentes, pode haver, embora nem sempre haja, elisão de uma delas, em geral a átona:

É o que se dá com os prefixos ta-, te-, se-, nda-, etc., que diante de vogal perdem a vogal final.

Exceções: te- & ikó “estar” = tekó “estar”, “ser”, “modo”, “costume”, “lei (de gente)”; te- & ína “estar parado” = téna “estar parado (gente)”; te- & iké “entrar” = teîké “entrar (gente)”. E as correspondentes formas para a classe inferior: sekó, séna, seîké.

Î e nh às vezes se permutam. Junto de nasal, é preferido nh: îandé ou nhandé “nós”, “nosso”; îakumã ou nhakumã “estaca de canoa”; îundiá ou nhundiá “especie de bagre”; aiîamĩ ou ainhamĩ “eu o espremo”.

S precedido de i se transforma em x: i & supé = ixupé “a ele”; i & = i xý “a mãe dele”; de subána “sugar”: aîxubán “eu o sugo”.

P, m e mb se permutam. Às vezes também b:

D, n e nd têm entre si as mesmas alternâncias que há entre p, b e mb, exceto as de (a) e (d): ndasóî ou nasóî “não vou”; nde ou ne “tu”, “teu”; nhandára ou nhanára “o que corre”; nhandába ou nhanába “modo, etc. de correr”; nhána & é = nhandé ou nhané “correr à parte”; amána “chuva” & “água” = amandý ou amaný “água da chuva”.

P inicial pode-se converter em b quando se encontra com o b da sílaba final anterior, com que se compõe: óba “folha” & péba “chato” = obéba “folha chata ou larga”; kabure'ýba & potýra = kabure'ybotýra “flor de cabreúva”; ába & pukú = abukú “cabelo comprido”.

O mesmo pode acontecer com m inicial: kuába & me'énga = kuame'énga ou kuabe'énga “mestrar”.

Mas, em geral, justapondo-se duas consoantes homorgânicas, a primeira cai: epîáka & katú = epîakatú “ver bem”; aûsúba & benhé = aûsubenhé “tornar a ver”.

A apócope pode dar-se, facultativamente, ainda do caso em que as consoantes não são homorgânicas: nhe'engporánga ou nhe'ẽporánga “falar bonito”; epîakpába ou epîapába “ver tudo”.

No tupi meridional (de São Vicente), e muito mais no guarani, a tendência é para a queda de toda consoante que não se encontre apoiada em vogal posterior, da mesma palavra (como é o caso dos substantivos, adjetivos, infinitivos paroxítonos) ou da palavra seguinte:

Como se vê, o guarani tende a eliminar a consoante (e a vogal átona) até dos nomes paroxítonos, exceto quando seguido de outra vogal.

Excepcionalmente, em tupi, as consoantes velares k, (n)g podem resistir na composição: aîpysykpotaribé “eu quero apanhar de novo”.

Seguida de certas preposições, como -ba'e, pýra, sûára, sûéra, -pe, -me, -pe?, -bo, -te, -ne, bé, -mo, -no, a consoante final costuma apoiar-se em um y eufônico, que alguns autores escrevem, outros subentendem: ogûerobîár(y)ba'e “o que acredita”; osepîák(y)ba'e “o que vê”; serobîar(y)pýra “o que é acreditado”; nhe'eng(y)xûéra “falastrão”; ók(y)pe “em casa”; pytún(y)me “à nocte”; oaîúr(y)bo “pelo pescoço”; asaûsúb(y)ne “eu o amarei”; ereîúr(y)pe? ou ereîúpe? “vieste?”; etc.

Obs.: A preposição -pe tem várias acepções: (1) “em” (lugar); (2) “a”, “para” (direção); (3) “com” (meio); (4) “por”, “em busca de”; (5) “por”, “porque” (causa); (6) “a”, “para” (dativo). Nas acepções (1), (2), (3) e (5), se a sílaba anterior for nasal, -pe converte-se em -me; a sílaba átona, se for ba ou ma, cai:

Nas acepções (4) e (6), a sílaba anterior se mantém intacta; apenas pode haver nasalização da preposição:

Em composição, um som nasal da sílaba final do primeiro elemento pode nasalizar a sílaba inicial do segundo elemento:

Obs.: Não soem alterar-se as sílabas que já são nasais: moséma, mopýma, mosáma, mosãîa, mosýma, motínga, mokónga, mitýma, mipána, tukãtĩ (e não tukandĩ) “bico de tucano”.

Um fonema nasal nasaliza levemente as sílabas vizinhas:

O prefixo causativo-comitativo ro- torna-se no- quando seguido de sílaba nasal:

Na vizinhança de nasal, r chega a diluir-se num som confuso entre r e n:

Às vezes r e n se permutam sem mais:

Já no tupi pré-colonial parece que o y tendia a converter-se em u. Na fase histórica, era facultativo u em lugar de y em muitas vozes, particularmente quando vizinho de labiais:

Compondo-se duas palavras, das quais a primeira acabe e a segunda comece por i ou y, surge não raro um î eufônico entre as duas:

Menos comum, mas pode o î eufônico aparecer também com outra vogal:

Acontece dar-se assimilação de i pelo î:

Na proximidade de som nasal, pode o î eufônico ser substituído por nh, que por sua vez pode assimilar o i.

R final se permuta por t — metaplasmo comum entre os tamôios, raro mas elegante entre as outras tribos:


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