A língua tupi não conhece flexões. Os vários conceitos gramaticais são expressos 1) por prefixos e sufixos, 2) pela ordem das palavras, 3) pela duplicação do tema, 4) ou por partículas especiais.
Não há artigo definido nem indefinido.
Gênero gramatical tampouco. A distinção dos sexos, quando necessário, traduz-se por palavras equivalentes a "macho" e "fêmea". Há porém palavras diferentes para distinguir as relações de parentesco do homem e da mulher. Assim, "filho" com referência ao homem é (t)a'ýra; com referência à mulher é membýra. A distinção leva ainda em conta o sexo do parente intermediário: "tio", irmão do pai, é o mesmo que "pai": (t)úba; já "tio", irmão da mãe, é tutýra. Há também a idade relativa: (t)ybýra é o irmão mais moço do homem; (t)ykeýra, irmão mais velho do homem.
Registram-se vestígios de linguagens diferentes usadas pelo homem e pela mulher, particularmente no campo das interjeições, advérbios e outras partículas: p. ex., "sim", dito pelo homem, é pá; dito pela mulher, é e'ẽ.
Não se conhece a nossa diferença entre singular e plural nos substantivos e adjetivos. No tupi colonial, porém, sob a influência do bilingüismo, o indefinido (s)etá, "muitos", tendia a tomar a função de plural ou pelo menos de multitudinal.
Obtém-se uma modalidade de plural com a reduplicação de uma ou duas sílabas (a tônica, ou esta e a pré-tônica) do tema verbal ou nominal, o que importa em certa multidão de ações ou seres (e também de agentes ou pacientes) no espaço ou no tempo.
Não há casos. A direrença entre sujeito e objeto direto só se manifesta pela ordem interna da frase, exceção feita para os pronomes, que dispõem de formas subjetivas e objetivas (estas variáveis também de acordo com o sujeito da frase.)
Os substantivos e também o infinitivo e os particípios verbais têm formas próprias para o passado, para o futuro, para o passado-futuro e para o futuro-passado.
Repugnam à lingua nomes abstratos de qualidades e semelhantes, como "injustiça", "bondade", "cor", "beleza", "distância", "tamanho", etc.
No tupi colonial nota-se a propensão para substantivar os adjetivos. Hipertrofiou-se no mesmo sentido de abstração o sufixo (s)ába, que de per si significa apenas as circunstâncias da ação verbal.
A índole concreta da língua evidencia-se ainda nos prefixos classificatórios como a para coisas "arredondadas", pó para as compridas, pý para as largas, apé para as de superfície igual. Assim, tanto sýma quanto asýma significam "liso", mas asýma reserva-se para qualificar os objetos lisos que sejam arredondados: ybá asýma "fruta lisa".
Os substantivos e adjetivos referentes a estados d'alma e qualidades interiores são amiúde meras descrições das concomitâncias nos órgãos do corpo ou nos sentidos externos: olhos, ouvidos, boca, nariz, mãos, pés, entranhas, etc.: îesarekó "considerar" = "ter olhos em"; tesaetá "muitos olhos" = muito cuidado; tesapóra "olhos saltados" = "extasiado". Para dar só mais um ex.: Montoya traduz "modesto" por tindý "nariz reto": de fato, na atitude modesta (cabeça baixa), o perfil do nariz é perpendicular e não oblíquo.
Nos pronomes, nenhuma distinção de gênero gramatical. Em câmbio, o desdobramento do pronome "nós": um que inclui a 2ª pessoa (eu ou nós & tu ou vós) e outro que exclui a 2ª pessoa (eu & ele ou eles s/ tu nem vós). Também um pronome reflexivo de 3ª pessoa o, distintivo do relativo i. Crf. latim suus e eius.
| Pronomes independentes | Prefixos verbais | |
| xe, ixé | eu | a- |
| nde, endé | tu | ere- |
| i, (s/t)o | ele, eles | o- |
| îandé | nós (incl) | îa- |
| oré | nós (excl) | oro- |
| pe, pe'ẽ | vós | pe- |
Os pronomes e os prefixos verbais são a chave da língua. Antepostos aos substantivos, os pronomes servem de possessivos. Antepostos a adjetivos, ou pospostos a substantivos e pronomes, formam os chamados verbos predicativos, dispensando o verbo "ser", que a língua tupi ignora.
O genitivo obtém-se pela simples justaposição dos dois substantivos em ordem inversa à do português: gûyratĩ: "bico de pássaro"; de gûyrá "pássaro" e tĩ "bico".
O aposto, como em português, vem em segundo lugar: abá-gûyrá: "homem-pássaro"; de abá "homem" e gûyrá "pássaro".
Os nomes de parentesco, partes do corpo e semelhantes, que implicam em certa noção de posse, nunca prescindem do possuidor (substantivo ou pronome) ou pelo menos de um índice ou pronome de classe inferior ou superior, conforme se refiram em geral a seres humanos ou a seres inferiores. Noutras palavras, não se pode dizer "vi um pé"; há de ser "meu pé", "teu pé", "pé dele", "pé de menino", "pé de onça", etc., ou pelo menos "pé (de gente)" ou "pé (de coisa)". Alguns nomes aparecem sem indicação alguma; subentende-se que dizem respeito a seres humanos: caso contrário, devem levar o índice da classe inferior.
Os índices mais gerais são poro- (cl. sup.) e mba'é (cl. inf.); para determinados nomes, aliás numerosos, t- (sup.) e s- (inf.).
Os adjetivos seguem-se sempre aos substantivos.
Os demonstrativos exprimem a proximidade com a 1ª, 2ª e 3ª pessoas e também se o objeto demonstrado está ou não à vista.
Os verbos propriamente ditos distinguem as pessoas por prefixos, que se antepõem imediatamente ao tema dos verbos intransitivos.
O verbo transitivo, entre esses prefixos e o tema, exige o substantivo que é o objeto direto ou o pronome objetivo correspondente. Quando o objeto direto não é de 3ª pessoa, desaparecem os prefixos pessoais subjetivos.
Não há categoria de tempo gramatical ou relativo. O verbo na sua forma simples significa a ação completa ou perfeita em qualquer tempo, principalmente no passado.
O que chamamos futuro verbal é expresso, quando necessário, pelo permissivo ou deliberativo ou por partículas (como -ne) de sentido intencional ou por outras locuções.
Há o conceito de aspecto ou tempo real, isto é, de duração da ação verbal: interativo e durativo, que se formam respectivamente pela reduplicação da sílaba tônica, ou da pré-tônica e tônica, do tema verbal.
Também a conjugação perifrásica realça a duração da ação verbal. Mas é o verbo auxiliar, correspondente ao nosso "estar", que vai para o gerúndio, e não o principal: anhe'éng gûitekóbo: "estou falando", lit. "falo estando".
Especiais prefixos levam os verbos transitivos às formas reflexiva e recíproca. Não há conjugação passiva.
Quase toda palavra que não seja verbo transitivo (substantivos, adjetivos, verbos predicativos e intransitivos, advérbios) pode tornar-se transitiva por meio do prefixo causativo mo- e do causativo-comitativo ro- ou no-. Este último implica uma certa conexão do sujeito com a ação causada ou pelo menos com o objeto direto: asém "eu saio", amosém "eu faço sair", anosém "eu faço sair, saindo também eu mesmo".
Para os verbos transitivos, há uma partícula copulativa, aliás verbo defectivo, com sentido e função análogas: anosém ukár "eu fiz retirar".
Os modos são: indicativo, imperativo, deliberativo ou permissivo, infinitivo e gerúndio formados todos com prefixos e sufixos especiais. O mesmo vale dos particípios e verbais para agente, paciente, e complementos verbais.
A língua conserva ainda assaz vivo o processo de incorporação do objeto ao verbo transitivo e mesmo, em menor escala, do sujeito ao verbo intransitivo.
O verbo assume forma especial, bastante parecida com a conjugação predicativa, quando o precede advérbio, locução ou oração subordinada.
Há alguns verbos irregulares, por via de regra os de uso mais constante, como "ir", "vir", "estar", "dizer", "comer", etc.
Alguns verbos só se usam com sujeito no plural. Outros só em composição, isto é, quando o objeto direto está incorporado.
Há prefixos e sufixos negativos. No indicativo eles se afixam simultaneamente ao verbo.
As preposições colocam-se sempre após o substantivo, pronome infinito ou particípio que regem.
É muito desenvolvida a linguagem afetiva. Partículas especiais exprimem os sentimentos estados d'alma com que a pessoa que fala acompanha a sua própria evolução; enfado, desgosto, raiva, desprezo, carinho, louvor, saudade, dúvida, interrogação, certeza, meia certeza, opinião baseada em informação de outrem, etc.
Grande número de palavras (substantivos adjetivos, verbos e preposições) levam os princípios móveis t-, s- e r-, ora um ora outro. Essas palavras têm um tratamento especial, e seccionam em duas partes a gramática tupi.
Em princípio, pode-se dizer que t- refere-se a "gente", e s- a "coisa", isto é, tudo o que não é gente: animais, plantas, etc. Aos substantivos, t- e s- prefixam-se na função de "possuidor"; aos adjetivos e verbos predicativos modificam-nos como atributos; aos verbos transitivos (caso raro) servem de objeto direto; as preposições regem-nos como a complementos:
| obá: rosto(s.) | tobá: rosto (de gente) sobá: rosto (de coisa) |
| úna: preto (adj.) | túna: (gente) preta súna: (coisa) preta |
| ára apanhar (v. trans.) | tára: apanhar (gente) |
| esaráîa: esquecer-se (v. intrans.) | tesaráîa: esquecer-se (gente) sesaráîa: esquecer-se (coisa, p. e. animal) |
| asý: sentir dor (v. intr.) | tasý: sentir dor (gente) sasý: sentir dor (coisa) |
| upí: por; de acordo (prepos.) | supí de acordo com (coisa ou algo) |
Além de t- e s-, há dois prefixos poro- e mba'é, que servem a todas as espécies de palavras, de modo particular às que não admitem t- ou s-.
Observe ainda que todas as palavras que admitem t- ou s- nunca aparecem sem algum prefixo: obá, úna, upí, etc. só aparecem nas gramáticas.
Os prefixos t- e s- são substituídos por r- em vários casos: após o possuidor (no genitivo) ou possessivo de 1ª e 2ª pessoas (s.); após pronome sujeito das mesmas pessoas (adj.); após objeto direto substantivo ou pronome da 1ª ou 2ª pessoa (v. trans.); após substantivo, infinitivo, ou pronome de 1ª ou 2ª pessoa, quando regidos de preposição.
Aos substantivos, t- e s- (e também poro- e mba'é) prefixam-se na função de possuidor; os adjetivos e verbos predicativos os modificam como atributos; aos verbos transitivos servem de objeto direto; as preposições regem-nos como a complementos indiretos.
Não confundir a função de pronome de classe de t- e s- com a função de pronomes da 3ª pessoa que têm s- e esporadicamente também t-.
O material sonoro do tupi não é tão característico e estranho como seria de se esperar de uma língua indígena.
As mesmas vogais, a, e, i, o, u, no seu timbre padrão. E e o como em espanhol. Há a acrescentar o som típico y, vogal para cuja pronunciação concorrem os lábios na posição de i e a língua na posição de u: o inverso do u francês. Quando na mesma palavra se segue vogal, parece ouvir-se após o y um g, que entretanto nem todos os autores registram: y(g)ára, y(g)asába, y(g)apéma, y(g)é, y(g)apó.
Todas as vogais podem ser nasais.
Semivogais: î, û, ŷ, que entram na formação de dezenas de ditongos crescentes e decrescentes, orais e nasais.
Consoantes: p, b, m; t, d, n; k, g, ng; nh; h, r, s, x. A estes sons acrescente-se a oclusão glotal ('). H ocorre em duas ou três palavras; ng é o n velar; r é sempre brando, mesmo inicial de palavra. B e g são fricativas sonoras (cpr. caber, em castelhano), a não ser quando precedidas de nasais. As sonoras b, d e g podem ser antenasalizadas; escrevem-se então mb, nd e ng. Podem, assim, iniciar palavras.
As sílabas são de vários tipos [C(onsoante), V(ogal), S(emivogal)]:
| V | CV | VC | CVC | SV | VS | SVC | CSV | CVS | SVS | CSVC | CSVS |
| a | ba | ab | bab | îa | aî | îab | bîa | baî | îaî | bîab | bîaî |
Não é compatível com a língua a junção CC.
As palavras simples são em geral oxítonas. Os paroxítonos e proparoxítonos são compostos de sufixos ou partículas. Não se excetuam os substantivos, adjetivos e infinitivos terminados em a átono, pois esse a é um morfema nominal.
É muito vasto o capítulo dos metaplasmos. O mais característico desses fenômenos é o da nasalização, que assume em tupi proporções desconhecidas em outros idiomas
Se quisermos definir a língua dentro da classificação descritiva de Edward Sapir, diremos que o tupi é uma língua:
(Edward Sapir é autor de Language, an introduction to the study of speech. New York, 1939.)